Travei - Parte I
Acontece que as idéias não esperam o banho chegar ao fim ou a mão alcançar o papel ou o computador ser ligado. E embora tarde, fica aquela esperança de que posso ainda salvar qualquer coisa, registrar a essência do que pareceu ser o enredo perfeito de um livro que já existe, mas falta ser registrado. O que resta são fragmentos que não se deixam ser continuados, porque prossegui-los seria trair a abstração original. Err:
Onírico
Eu estava caindo quando Giselda me chamou. Teria sido diferente se ela tivesse pedido perdão. Mas ela se limitou a segurar minha mão e encaminhar-me para o porão da casa do Sir Silva, como gostava de ser chamado o simpático senhor que residia na casa que ficava ao lado, no passado. Por se tratar do que não existe mais, é natural que Silva não estivesse ali. Então, sozinhos no porão, Giselda rasgou minhas vestes e me tragou. Literalmente. Depois se atirou na piscina, com um salto e um requebrado de hula-hula, deixando-me sozinho na rede da casa de praia. Saí. De imediato, senti o frio do Ártico trespassar minha espinha. Eu deveria ter estranhado o ocorrido, mas no Ártico não existem pingüins e deixei-me estar. O relógio quebrou, eu soube depois. Atrasei uma vez mais e comeram meu rim no escritório. Isso antes de eu descer para a seção de corte. Galinhas precisavam ser mortas, repetiu o patrão, precisavam, precisavam. Oito horas cortando e desmembrando asas. Pobres, peço perdão a cada uma delas, em silêncio. Argumento nada poder fazer além de não consumi-las fritas depois. É porque eu as asso. Com cebolas. Então lá estávamos nós outra vez, Maria e eu.