A-deus
Eu quis muito ir embora. Passei anos desejando fugir. Acreditava que a minha vida era a, hum, err, “aquilo” por causa daquela cidade. Pensava que o perfil DOENTIO daquela gente estava vinculado àquele espaço, àquela cultura, àqueles pés de bergamota. Mas não pense que a ingenuidade era assim grande – eu sabia que duas coisas poderiam acontecer na “nova aldeia”: ou os fatos mudariam, ou os fatos não mudariam (duh). Óbvio que eu desejava [muito] que a situação melhorasse. Nem tanto por prazer individual, mas por questões de deslocamento de culpa: estaria comprovado que o problema, de fato, era minha cidade natal. Mas aconteceu que
Fui até ao campo com grandes propósitos
Mas lá encontrei só ervas e árvores
E quando havia gente era igual à outra.
Pouca coisa mudou, e, de um modo geral, bons e ruins se anularam. Aqui tem opções de lazer e emprego. Mas o primeiro torna-se monótono com o passar do tempo (e beber é algo que se pode fazer em qualquer lugar…). O segundo te faz escravo: funções medianas que possibilitam a auto-suficiência são verdadeiras máquinas de exploração. Em contrapartida, neste lugar não tem ar limpo nem céus estrelados nem noites escuras. Lembro que, logo ao mudar, sofri horrores até conseguir me habituar ao barulho e à claridade permanentes. No meu outrora quarto, a escuridão era absoluta e eu gostava de ficar olhando para o vazio (ou para o eterno ou para o transcendental, dependendo do poeta). Aqui, se não fecho os olhos, não adormeço.
A grande diferença, contudo, eu esperava encontrar nas pessoas. Imaginava uma mentalidade diferente, inteligente, cultural. Pequenos Da Vincis da atualidade. E eu esperava ver etezinhos alternativos. O que encontrei? Gente igual. CADÊ os clubbers:? Os góticos? Os rappers?
Não pensei que consideraria tão rápido a possibilidade de retornar para casa. Se a realidade continua a mesma, por que ficar aqui? Se o problema sou eu, pra que quebrar a cara de novo?
Vou terminar esse curso e passar uns tempos naquele lugar amaldiçoado. Tem uma biblioteca pública para ser organizada, né? (que dor no coração ao lembrar que não li Crime e castigo porque os volumes estavam na ala de literatura infanto-juvenil).
E eu tinha prometido não fazer mais blogs diarinhos. Tsc.
nem o lugar, nem as pessoas, nem vc mesma…
o momento é o problema. sim, momento, assim como o tempo que joga conosco e que nos confunde num eterno vai e vem, na dança do relogio, a corrida dos ponteiros - o que incomoda aqui é a solidão da cidade grande, diferente da solidão da cidade pequena. aqui tem gente, mas cada um com seu umbigo! viver aqui requer paciencia e loucura - e não é todo lugar que tem boa companhia pra beber! ah, e aposto que na cidade pequena não tem um grupo de loucos que faz uma peça de 4 horas que te faz rir à beça!! também não deve ter duas loucas que passam um ano inteiro estudando contigo pra só no fim do ano descobrir que vc é legal…
e mais um monte de coisas que o horário me impede de pensar - vou dormir!
Comment by Nira - a do livro — December 28, 2007 @ 6:02 am