Ouvido é um bem adquirido
No princípio, havia o silêncio. E depois fez-se o fósforo e fez-se a caixinha de som para computador – o universo irrompeu em estardalhaços.
Não tive uma infância musical como todas as pessoas de boa índole tiveram. Papai gostava de Teixerinha e eu amava Chiquititas. E amava fazer aqueles cadernos de letras de música de criança, muitas das quais nunca cheguei a ouvir.
Dos 10 aos 12 anos vivi sem escutar nada voluntariamente. Até o dia em que me perguntaram ‘e aí, você gosta de Hangar?’ ‘Hanq?’ ‘Hangar, alô, o da estrela guia!’ ‘não sei do que você está falando…’ ‘vo você nã nã não sabe?’ ‘não, ué’ ‘SUA INCULT, NOSSA AMIZADE ACABA AQUI! *sai pisando firme*’.
Não tínhamos aparelho de som com leitor de cd ainda e o jeito foi apelar para o rádio. Meu deus, eu havia descoberto a rebeldia: cpm22, capital inicial, biquíni cavadão, detonautas, engenheiros do hawaii, nenhum de nós, legião urbana, titãs, charlie brown jr. E o pior, motivo de futuros arrependimentos: abria a boca pra dizer que amava essas joças. Aos 14 ganhei um computador com entrada para cd e eu não precisava mais ouvir a voz de sino rachado da radialista. Daí eu passei a ouvir infinita highway até Donkey Kong travar e o computador precisar ser reiniciado (sim, eu usava o wmp). Cantava julho de 83 querendo acelerar o tempo e ter 15 anos. Colocava primeiros erros no repeat pra tentar entender se era ‘sol’ ou ‘sal’. Enfim.
Foi quando deus abençoou essa casa com a internetchê. E eu descobri o soulseek. Baixei Anathema e Lacuna Coil por causa dele e Nightwish por causa do fantasminha. Beatles e Tiersen vieram logo depois e eu amaldiçoei com força o que havia ouvido até então (exceto legião urbana). O Brasil não sabia fazer música (exceto Renato Russo). Meio ano depois eu seria apresentada aos mutantes por ele e a secos e molhados por ele. Me arrependi de ter xingado o Brasil. Depois veio a mpb, com Buarque e Jobim puxando a carroça. Tom Zé era assim bizarro e eu precisei aprender a ouvir. Bidê ou balde e ultraje a rigor faziam as caminhadas à faculdade parecerem mais rápidas e Rita Lee chegou pra renovar o penteado dos beatles. Anticontrole mandou baixar casa das máquinas e sanduíche de queijo fez dessa a minha banda preferida (por um dia). Pato fu e Zeca Baleiro já garantiram seu lugarzinho no meu hd e sapatos bicolores está a 70%. Depois quero ver qual é a do cachorro grande, ultramen e Wander Wildner.
Férias pra baixar, exílio para ouvir. Ai, ai.
Não tive uma infância musical como todas as pessoas de boa índole tiveram. Papai gostava de Teixerinha e eu amava Chiquititas. E amava fazer aqueles cadernos de letras de música de criança, muitas das quais nunca cheguei a ouvir.
Dos 10 aos 12 anos vivi sem escutar nada voluntariamente. Até o dia em que me perguntaram ‘e aí, você gosta de Hangar?’ ‘Hanq?’ ‘Hangar, alô, o da estrela guia!’ ‘não sei do que você está falando…’ ‘vo você nã nã não sabe?’ ‘não, ué’ ‘SUA INCULT, NOSSA AMIZADE ACABA AQUI! *sai pisando firme*’.
Não tínhamos aparelho de som com leitor de cd ainda e o jeito foi apelar para o rádio. Meu deus, eu havia descoberto a rebeldia: cpm22, capital inicial, biquíni cavadão, detonautas, engenheiros do hawaii, nenhum de nós, legião urbana, titãs, charlie brown jr. E o pior, motivo de futuros arrependimentos: abria a boca pra dizer que amava essas joças. Aos 14 ganhei um computador com entrada para cd e eu não precisava mais ouvir a voz de sino rachado da radialista. Daí eu passei a ouvir infinita highway até Donkey Kong travar e o computador precisar ser reiniciado (sim, eu usava o wmp). Cantava julho de 83 querendo acelerar o tempo e ter 15 anos. Colocava primeiros erros no repeat pra tentar entender se era ‘sol’ ou ‘sal’. Enfim.
Foi quando deus abençoou essa casa com a internetchê. E eu descobri o soulseek. Baixei Anathema e Lacuna Coil por causa dele e Nightwish por causa do fantasminha. Beatles e Tiersen vieram logo depois e eu amaldiçoei com força o que havia ouvido até então (exceto legião urbana). O Brasil não sabia fazer música (exceto Renato Russo). Meio ano depois eu seria apresentada aos mutantes por ele e a secos e molhados por ele. Me arrependi de ter xingado o Brasil. Depois veio a mpb, com Buarque e Jobim puxando a carroça. Tom Zé era assim bizarro e eu precisei aprender a ouvir. Bidê ou balde e ultraje a rigor faziam as caminhadas à faculdade parecerem mais rápidas e Rita Lee chegou pra renovar o penteado dos beatles. Anticontrole mandou baixar casa das máquinas e sanduíche de queijo fez dessa a minha banda preferida (por um dia). Pato fu e Zeca Baleiro já garantiram seu lugarzinho no meu hd e sapatos bicolores está a 70%. Depois quero ver qual é a do cachorro grande, ultramen e Wander Wildner.
Férias pra baixar, exílio para ouvir. Ai, ai.
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