April 28, 2008

Da asnice


Nunca antes a visão do boçal me fora tão clara. Pois há que se considerar três tipos de néscios: o ingênuo, o grandiloqüente e o em desenvolvimento.
Do primeiro espera-se humildade, simplicidade. É ele tolo sem objetar-se, sem mesmo sabê-lo. Faz de si o que tiver de ser feito, e o faz com convicção.
Do segundo espera-se uma profusão exaltada de conhecimentos que ele não detém. É o intelectual boçal: esforça-se por preencher seu oco encéfalo e, não sendo a inteligência parte integrante de sua natureza, sai por aí a falar que não há ser dotado de maior sabedoria que a sua. Porque quando não se faz, é mister falar que se faz, ou do contrário poderá a identidade entrar em colapso, e o néscio grandiloqüente desconhece o conceito de “crise”.
Do terceiro espera-se o silêncio de quem sabe e prefere calar-se. É esse o intelectual que consta no dicionário – reconhece sua inferioridade e busca minimizá-la o mais possível. Não que o consiga, porque à medida que sua mala de referências aumenta, cresce também a dúvida do que de fato é e do que de fato acredita ser.
Eu, por mim, rio dos três. O intelectual deveras é o que mais cócegas me faz.   

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April 25, 2008

Vida


[delet]

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April 18, 2008

Psico


Quando passo pela ponte e percebo o riacho alterado, raivoso, entornando ódio, é que lembro de abrir o guarda-chuva e sacudir os sapatos. Sinto então o peito molhado e continuo, passos mansos por ter lançado ali essa revolta crônica, radicada.

Quando retorno, a água já calma, pego de volta a angústia e levo-a comigo. É preciso acalantar o remorso e dar-lhe papinha. Nada mais infame que ter bebês seus nutridos pelo mamilo do inimigo. Não, não.

 

Up: Mais alguém lê o harold’s planet?

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April 10, 2008

Káqui


Seja razoável: "the best of life is intoxication".

Não são gnomos, Jim. São poesias fáceis ("vira a bunda, gostosa") de um autor anônimo. Adoro autores anônimos: eles existiram para que somente eu os apreciasse. E virasse sedenta as páginas, e sentisse com prazer o cheiro de livro velho e renegado (a biblioteca não o considerou digno de seu acervo).

Reencontrar pessoas queridas é sempre bom, né?

E

entre vácuos, ouvir estrelas.

- Francisco Káqui. 

 

(Terminar textos decentemente é uma arte que desconheço.) 

 

 

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April 8, 2008

diário diarinho diaroso


Um dia de sol, opaco assim, eu me virei e fui, muda e sem remorso. A coisa bateu depois: como eu fui infantil, Janis, mais que tu com tua mercedes e tua tv colorida. Eu deveria ter explicado melhor, muito melhor. E me desculpado por estar fugindo de novo, por admitir que não, não daria em nada mesmo.
À parte isso, a coisa-boa-e-distante continuaria suprindo minhas carências e minhas dúvidas existenciais. Só poderia ser com ele, alguma hora ia se concretizar. Acontece que dei na metade do caminho, curiosidade pura. E fui correndo contar isso à esperança-existente-atrás-do-horizonte. Ingênua, eu sei. Dessa vez a “deixada” fui eu, castigo, eu acho.  
E por gostar de um e de outro, ocorreu de eu ir morar com um terceiro, alheio a tudo e com a [CENSURADO]* (ou não, eu tentei ser sutil).
Ai, McCulloch, eu também decidi vestir meu espinho de coroas. Quero de volta minha solidão-solitária, não mais essa solidão-cúmplice-e-pedante.
C-c-c-cucumber.

 

* Porque, sendo a falsa legítima que sou, devo esconder as coisas, guardá-las no fundo empoeirado dessa cabeça oca que o acaso me deu. Não há contradição nisso, não procure.

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