Da asnice
Nunca antes a visão do boçal me fora tão clara. Pois há que se considerar três tipos de néscios: o ingênuo, o grandiloqüente e o em desenvolvimento.
Do primeiro espera-se humildade, simplicidade. É ele tolo sem objetar-se, sem mesmo sabê-lo. Faz de si o que tiver de ser feito, e o faz com convicção.
Do segundo espera-se uma profusão exaltada de conhecimentos que ele não detém. É o intelectual boçal: esforça-se por preencher seu oco encéfalo e, não sendo a inteligência parte integrante de sua natureza, sai por aí a falar que não há ser dotado de maior sabedoria que a sua. Porque quando não se faz, é mister falar que se faz, ou do contrário poderá a identidade entrar em colapso, e o néscio grandiloqüente desconhece o conceito de “crise”.
Do terceiro espera-se o silêncio de quem sabe e prefere calar-se. É esse o intelectual que consta no dicionário – reconhece sua inferioridade e busca minimizá-la o mais possível. Não que o consiga, porque à medida que sua mala de referências aumenta, cresce também a dúvida do que de fato é e do que de fato acredita ser.
Eu, por mim, rio dos três. O intelectual deveras é o que mais cócegas me faz.