Dos textos que eu não terminei…
Lucinda (ou o vazio que saiu de nós e subjugou o mundo)
Assim era Lucinda: unhas brancas e pretas alternadas. Vez por outra ousava pintar a mesma mão com uma única cor, e todos sabiam que algo em seu cerne estava em desalinho. Todos sabiam, embora não a conhecessem e tão pouco lhe dirigissem a palavra. Mas esqueçamos os outros. Lucinda, ah! Lucinda.
Lucinda não tinha. Lucinda era. Completou dezessete anos e saiu da casa dos pais. “Não volto mais”, disse, mas, dois dias depois, lá estava ela, a tocar a campainha impacientemente. Unhas desbotadas – esquecera os esmaltes.
Ninguém soubera que o ocorrido não fora sua primeira, mas sua última tentativa. E afinal, ela desistiu. Abriu mão daqueles que se diziam seus amigos, daqueles que se acreditavam seus cachorros, daquilo que lhe quiseram impor como realidade. Disse um adeus mudo às coisas antes de virar a chave da fechadura do quarto. E ante ao absurdo que sua mãe via nessa atitude, Lucinda limitou-se a pedir que trouxessem mais uma xícara de café, obrigada.
O quarto de Lucinda. O universo de Lucinda. Nunca sentira seu ‘eu’ como podia agora. Nunca visitara tantos lugares e tantos passados. Lia, lia, lia, lia. Estava num amplo salão de uma construção gótica quando conheceu Parsifal. E estavam sozinhos – o mundo deixara que aquele momento fosse apenas deles. Só em livros, pensa. Aproximou-se do senhor-nem-tão-senhor-assim e disse, olha moço, o que acha do vazio que saiu de nós e subjugou o mundo? E o moço disse que seu nome era Parsifal e que seu criador o alertou para essas intimidades impertinentes e, se não for pedir demais, deixe-me a contemplar o tédio, coisa que faço a um sem-número de tempo e assim ditam as regras, como assim o porquê disso tudo? E Lucinda disse ao seu bobo da corte de pelúcia que a sua realidade também era desalentadora, mas era sincera. Sincera na dose correta, acrescentou o objeto desprovido de fala e princípio vital.
O nome da mulher era Danube. Feia, porque seu superior quis ser engraçadinho e diferente. Tão diferente que ousou qualificar Danube como “feliz apesar de todos os impropérios”.
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