May 30, 2008

Travei - parte IV


Assim, assim…

Ali estavam. Ali permaneceram.
Tapei meus olhos, mas não houve dedos que encobrissem o fato. Deu-lhe uma flor. E um sussurro. E uma vida de infortúnios. Mas ali, ali ficaram sorrindo, a exibir cáries e simular alegrias inexistentes.
Bisbilhotar não era lá coisa de meu feitio, e logo uma borboleta veio a pousar sobre meu pé. Era preta, a bichinha. Segundo indício de mau agouro naquele dia. O primeiro fora um grão de pipoca que ficara grudado no fundo da panela.
Noutro lado da rua, vi a flor ser violentamente pisoteada. Sem pétalas, sem sangue.

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May 29, 2008

Oi


Oi, minha boca está distendida de um canto a outro, a mancha do dente não me incomoda, os dedos apontando também não. Oi, eu tenho um bichinho de pelúcia chamado Joe, minhas mãos doem, meu sorriso salta de galho em galho e deixa curiosas as folhas das bananeiras e das laranjeiras (é preciso precaver-se quando as peças do jogo são bananas e laranjas). Oi, achei um ponto ótimo no céu de hoje, na noite de ontem e no olhar de sempre. Oi, quer chiclé?
E de repente eu vi a felicidade misturar-se com a melancolia do álcool eremita. Oi, minha boca continua distendida de um canto a outro, a mancha continua não me incomodando e os dedos pararam de apontar. Engraçado como certas coisas tornam a vida mais suportável.

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May 27, 2008

Travei - parte III


Dos textos que eu não terminei…

Lucinda (ou o vazio que saiu de nós e subjugou o mundo)

Assim era Lucinda: unhas brancas e pretas alternadas. Vez por outra ousava pintar a mesma mão com uma única cor, e todos sabiam que algo em seu cerne estava em desalinho. Todos sabiam, embora não a conhecessem e tão pouco lhe dirigissem a palavra. Mas esqueçamos os outros. Lucinda, ah! Lucinda.
Lucinda não tinha. Lucinda era. Completou dezessete anos e saiu da casa dos pais. “Não volto mais”, disse, mas, dois dias depois, lá estava ela, a tocar a campainha impacientemente. Unhas desbotadas – esquecera os esmaltes.
Ninguém soubera que o ocorrido não fora sua primeira, mas sua última tentativa. E afinal, ela desistiu. Abriu mão daqueles que se diziam seus amigos, daqueles que se acreditavam seus cachorros, daquilo que lhe quiseram impor como realidade. Disse um adeus mudo às coisas antes de virar a chave da fechadura do quarto. E ante ao absurdo que sua mãe via nessa atitude, Lucinda limitou-se a pedir que trouxessem mais uma xícara de café, obrigada.
O quarto de Lucinda. O universo de Lucinda. Nunca sentira seu ‘eu’ como podia agora. Nunca visitara tantos lugares e tantos passados. Lia, lia, lia, lia. Estava num amplo salão de uma construção gótica quando conheceu Parsifal. E estavam sozinhos – o mundo deixara que aquele momento fosse apenas deles. Só em livros, pensa. Aproximou-se do senhor-nem-tão-senhor-assim e disse, olha moço, o que acha do vazio que saiu de nós e subjugou o mundo?  E o moço disse que seu nome era Parsifal e que seu criador o alertou para essas intimidades impertinentes e, se não for pedir demais, deixe-me a contemplar o tédio, coisa que faço a um sem-número de tempo e assim ditam as regras, como assim o porquê disso tudo? E Lucinda disse ao seu bobo da corte de pelúcia que a sua realidade também era desalentadora, mas era sincera. Sincera na dose correta, acrescentou o objeto desprovido de fala e princípio vital.
O nome da mulher era Danube. Feia, porque seu superior quis ser engraçadinho e diferente. Tão diferente que ousou qualificar Danube como “feliz apesar de todos os impropérios”.

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May 21, 2008

São brancos, os versos


Olhos que perscrutam lentes
Lentes que vislumbram olhos
Não as lentes dos mesmos olhos
Nem os olhos das suas lentes
Mas olhos e lentes que a si não pertencem
Alheios, criminosos quase
Cúmplices de igual mistério
Reféns de igual juiz 

Dor não haveria se esses mesmos olhos
Essas mesmas lentes
Esses reflexos oriundos da mesma fonte
Reflexos dos dedos, angustias e cabelos
Dor não haveria se esses olhos encerassem em si o subseqüente
Contivessem em si o palpitar do quarto escuro
O gemido do último encontro
Não, não existiria dor se esses olhos não soubessem terminar em si
O desejo que não se efetuou
O futuro carnal restrito ao pensamento promíscuo
O delírio ptialínico que só aos outros compete  

Percebo agora que as lentes nunca
Refletiram meu tormento.

 

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Antes que o digam: não, eu NÃO pretendo publicar um livro de poesias (?). Grata.

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May 19, 2008

Não deveria ser


Nas mãos  o traço de quem deveria estar sob a tampa de uma sepultura. O traço de quem permanece viva mas o faz sem possuir direito. Os traços que cortam a sensibilidade ao meio e assim a divide em quatro metades. Metades deveras. A cada delas, a porção da vida que não aconteceu. As mãos guardam tatos que se esqueceram de realizar, como disse Quintana (deve ter sido Quintana).
As mãos. Pequenas e inquietas (o pequeno tende a ser inquieto). As mãos correm o corpo à procura de feridas. Feridas precisam ser tateadas para serem sentidas, para termos consciência delas. As feridas só são feridas se forem tateadas. Do contrário, não passam de impregnações da consciência.

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May 9, 2008

Primeira vez


Que alguém expõe alguns lados negativos da leitura. Obrigada, torradinha, pensei ser anormal portar tais pensamentos perniciosos e - quem dirá! - sair por aí a expô-los e ser tida como tolinha ou assistente do bozo.

E escrito por um Doutor, WOW:

"Os que lêem são […] os que preferem ou pelo menos não detestam a solidão e não conseguem disfarçar um certo amargor e um certo pessimismo…"

Leia o restante aqui, odeio artigos mas esse é, indiscutivelmente, exceção. Uma uva, como diria o Nelson. 

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May 5, 2008

fúria


O olho só percebe o lápis quando não o vê mais.

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