July 22, 2008

Enquanto o sangue não vem


Menstruação atrasada. Dentro do prazo, mas atrasada. Eu fiz tudo certo, sei que fiz. Até despertador eu coloquei pra tomar a droga da bala na mesma hora sempre. Eu sei que virá, sinto um pouquinho de cólica desde ontem. Mas ainda assim o desespero. Saco.
Então lembrei de um texto que li para meu hímen um dia, e decidi colocá-lo aqui, para o público masculino tentar sentir um pouco de uma das grandes angústias femininas. A opinião sobre o aborto é a mesma que eu sustento.

 

Minha opinião sobre aborto? Bem, digamos que a essência é a mesma, mas os argumentos mudaram consideravelmente.

Antes:
É egoísmo obrigar a vir ao mundo uma criança que não será querida. E ela sabe disso, ah, se sabe, antes mesmo de nascer. Pra que? Pra ter mais um sem ter o que comer, onde estudar, onde trabalhar? Pra criar mais uma família desestruturada onde só há desentendimento e frustração? Pra mais uma criança abandonada na rua? Não, meu amigo, se você não vai dar uma boa estrutura familiar (e refiro-me a questões financeiras e afetivas) não me faça essa sacanagem com um inocente, porque de gente problemática o mundo já está cheio.

Depois:
Menstruação atrasa. Teste da farmácia dá positivo.Putaqueopariu, não dá pra confiar em camisinha. Por que diabos eu fui parar de tomar a merda da pílula? Nessa hora eu não pensei na vida que daria pra criança, pensei na minha. Na faculdade e no curso técnico por terminar, no estágio, em tudo o que eu ainda queria fazer, nos projetos de sair da casa dos meus pais, de passar uns anos trabalhando fora, de juntar uma grana e me perder no mundo sem dar sinal de vida pra ninguém, de ter casa própria…
Depois pensei na minha mãe, na decepção que ela teria, nos sonhos todos que meu pai coruja tinha feito para a única filha dele, no que eu diria, e se diria, pro ex (sim, porque Murphy rege a minha vida e o namorico de pouco mais de um mês tinha recém terminado). Pensei em pedir abrigo pra pseudo-tia que mora em outro estado, ter a criança e entregá-la a uma instituição, mas mamãe trabalhava com serviço social e eu já conhecia histórias escabrosas suficientes sobre esses lugares. Pensei em virar mãe e entrei em pânico só de pensar na possibilidade de acabar odiando a criança e culpando-a por todas as minhas frustrações. Pensei que naquela altura eu era o orgulho da família, a neta exemplar que trabalhava sem parar e nunca tinha tirado uma nota baixa na vida, e na cara com que iria olhar para o clã no almoço de domingo. Pensei na minha mísera fonte de renda e na mesada que ainda recebia, nos anos de economia de papai para que pudesse se aposentar e morar na praia e se teria coragem de pedir que abrisse mão deles.
Pensei em aborto. Em tomar remédio pra úlcera e provocar emorragia. Pra garantir, também pensei em agulha de tricô vagina adentro. Foda-se o que acontece depois, o importante é que sai. Pensei em procurar uma clínica, mas como é que eu encontraria algo do tipo se não podia contar pra ninguém? Sim, porque eu estava planejando um crime, não podia comprometer as pessoas em quem confiava obrigando-as a serem cúmplices. Isso fora a consciência me chamando de assassina.
Passei noites sem dormir e quando finalmente conseguia pregar os olhos tinha pesadelos com choro de criança. Eu não podia ter um filho. Não daquele jeito. Eu sonhava, e ainda sonho, em casar e ter filhos. E se desse tudo errado e eu ficasse estéril? E se meus pais tivessem que assistir ao enterro da própria filha depois de um médico desconhecido dizer que ela sofreu complicações decorrentes de um aborto mal feito?
Alguns dias depois o raciocínio lógico consegui se sobrepor ao conflito entre culpa e desespero e fiz exame de sangue. Negativo.

Saldo final:
Não sei dizer quanto tempo isso levou. Poucos dias com certeza, decididamente os piores de toda a minha vida. Este depoimento levou dois dias pra ser escrito, pois em determinados momentos a vista embaçava demais, em outros a emoção tomava conta e eu ficava impossibilitada de escrever frases com começo, meio e fim ou qualquer coisa que fizesse sentido. E isso porque eu não fiz um aborto. Mas faria e provavelmente até o último minuto não saberia se aquela era a decisão certa. Pense agora em quem chegou às vias de fato.
Voltando ao assunto principal, que diferença faz a descriminalização? A diferença de poder dividir a angústia, de ter apoio psicológico, de poder conversar sobre isso e tomar atitudes mais conscientes. Diferença de entrar num hospital, submeter-se a um procedimento acompanhada por uma equipe de confiança e ter a quem recorrer caso algo saia errado. Crime ou não, mulheres desesperadas continuarão fazendo abortos. Que pelo menos sobrevivam a eles, e com a menor quantidade de seqüelas possível.

 

Fonte: http://www.verbeat.org/blogs/coerencia/arquivos/2005/09/

 

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Update: VEIO. *suspiro de alívio*
E mês que vem será essa mesma aflição de novo. E de novo. E de novo.

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July 20, 2008

The book is under the table: my legs are short.


Inglês é chique. Inglês é fácil. Inglês tem som de leite condensado com cereja. Inglês é tudo o que você precisa saber para escrever um "About me" perfeito - porque o perfeito é inintelígivel, e é este o ponto. Português pra quê. Brasil pra quê. "Que" com acento?
E o dicionário bilíngue aqui ao lado. Me explico: estudando pra saber ignorar*. É.

*Tom Zé - Tô.

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July 14, 2008

do relacionar-se e outras batatinhas


Nunca entendi o desespero que circunda as não-relações e as relações amorosas. No primeiro caso temos como exemplo mais exímio o solteiro, popular encalhado, não-pegador, nerd e loser. Estar só é vergonhoso, um crime quase. E a maioria daqueles que se encontra em tal condição mal espera pelo momento de sair dela. Por quê? Porque não sabe conviver consigo mesmo, seja pela inexistência de uma identidade sólida, seja pela necessidade incontrolável de trocar líquidos com outrem.
A aflição existente no segundo caso é ainda mais crítica: o solteiro, que não via a hora de estar com alguém, não sabe conviver com este alguém. É inseguro, possessivo, ciumento. Exige que o companheiro lhe forneça senhas de e-mails e cartões bancários. Não admite a individualidade do outro, a vida pessoal do outro.
Concordo que, num primeiro relacionamento, isso é admissível. Mas depois de uma primeira experiência muitas lições são/deveriam ser extraídas, e a principal delas refere-se a integridade social do companheiro. Ciúme sempre haverá – sinto bastante, inclusive – mas isso não me concede o direito de intervir na vida/círculo social daquele com quem escolhi dividir momentos de cumplicidade.
Quem reprime demais o parceiro, das duas uma: ou será traído, ou será deixado.
 

E tudo isto porque estou cansada de me sentir uma criminosa toda vez que converso com meu talvez-único amigo, uma vez a cada meio ano. E também porque, depois de três anos de retiro, eu encontrei alguém com quem partilhar vinho e chocolate e quintas-feiras.  

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July 13, 2008

Férias, oi


O mais legal das férias e desse lugar-no-meio-do-mato é que se pode cantar alto – MUITO alto – sem maiores constrangimentos. E viver a nostalgia. Intensamente. Como só é possível quando se passa as férias no lugar-no-meio-do-mato em que se cresceu e chorou e caiu e descobriu os grandes segredos metafísicos do mundo (vulgos “revolucionarei o sistema com o róque enrow” e “só me realizarei depois de abraçar um esquimó”).
Eu era feliz. Apesar do tédio, da solidão e das brigas de panela com mamãe. Mas essa felicidade não me cabe mais: encurtou, deixou pernas à mostra. Quero mais. A idade avança e o inconformismo também.  Às vezes eu acho que deveria trabalhar mais. Às vezes eu acho que deveria viver mais. Às vezes eu não acho: abraço o travesseiro e fico – que a vida é curta e eu tenho que acariciar meu ego às vezes, no bom sentido. Ultimamente eu tenho tido vontade de me gastar – fazer tudo até não agüentar mais. Mas a única coisa que tenho feito até dizer “chega!” é dormir. Coisa que farei agora – o sono pesa e a dor-do-mundo-todo-nas-costas também.

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July 9, 2008

Livro+caixa+organizar


Terceira fase e só agora resolvi ler Introdução à Biblioteconomia, de Edson Nery da Fonseca. Livro bom, gostoso demais. Não aquele técnico chato escrito por gente pernóstica, mas um livro técnico redigido por quem domina a arte da escrita de tal modo que não precisa usar de um vocabulário exuberante para prová-lo. Mas quero mesmo é falar sobre a graduação. A começar pelo vestibular. Biblioteconomia é daqueles cursos que atraem pessoas pela concorrência, visto ser ela tão baixa que escrever o nome corretamente já te coloca dentro da universidade (minúsculo, obrigada). Essa situação tem suas balas e pimentas. É bom para gente individualista como eu: em concursos públicos me garantirei, estou certa. É ruim para a classe: pessoas que se formaram arrastando a bunda não desempenham devidamente o seu papel e acabam prejudicando aqueles que de fato estudaram durante a graduação. Outro inconveniente é a relação que a turma estabelece entre si – como são poucas as pessoas que estão em sala porque realmente optaram pelo curso, não existe união entre os colegas, porque os objetivos não são os mesmos. Não há, como em outras áreas, um perfil do acadêmico de biblioteconomia. Há graduandos e graduandas e cada caso é singular.

Passado o vestibular, começam as aulas. Para as pessoas que saíram do Ensino Médio o primeiro semestre é penoso – difícil agüentar três períodos de cinqüenta minutos com o mesmo professor. Difícil, também, acostumar-se com as disciplinas não convencionais e seus nomes engraçadinhos (Representação descritiva, Tratamento temático, Psicologia das relações de trabalho…). A segunda fase também não é das melhores. Você pensa que já está habituado à rotina acadêmica, mas é tudo piada do tio Ilusão. Só na terceira fase é que as coisas engrenam, acho. Mas era sobre o curso que falávamos, prossigamos. O foco da biblioteconomia, atualmente, é bipartido. De um lado, a satisfação do usuário; de outro, a busca por novos meios de organização informacional. Este segundo já se acreditava superado, mas a tecnologia veio para abalar com a área. Organização – é o que se aprende no curso. E se a universidade tiver bom senso, disciplinas de humanas/conhecimentos gerais também estarão inclusas no currículo. Enfim. Mais informações aqui: http://www.faed.udesc.br/modules.php?name=Conteudo&pid=12.

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July 6, 2008

De volta ao lar


É sempre assim: volto para casa e esse mal-estar me acomete já na entrada, torna-se agudo na sala de estar e crônico quando atinjo o quarto. Não é ex-saudade, não é o reencontro com as paredes que presenciaram o que passou. É só uma quase angústia, uma perturbação que não me larga.
Férias. Não como as do ano que passou. Porque agora eu esfriei – não chorei quando vi papai e mamãe. Chorei lá, longe, quando da visita de meu irmão: normalmente fico inconsciente quanto à distância das coisas que amo. Mas agora não, está tudo certo, tudo igual. Exceto pelo fato de ter um apego na outra cidade – coisa até aqui inédita também. Ruim isso de ter muitos afetos em muitos lugares. Enfim.
O amor pela máquina diminuiu, é preciso acrescer. Já não acarinho o mouse como antes. E meus olhos ficaram mais sensíveis, também.
Agora tenho minha cama com o cheiro do amaciante da mamãe. Tenho minhas músicas com plugin de letra e tudo, pra cantar descaradamente com meu inglês porco. Tenho chimia de ovo, rapadura e cuca de côco. E churrasco, como não podia deixar de ser. Tenho minha mesa de estudos no porão mofado.
É bom, muito bom. Só não tenho pessoas, porque elas estão fazendo cursos em universidades que fazem greve e desgraçam com a data das férias. Quando eles vêm, eu volto.
O desapego é conseqüência desse vai-e-vem todo. A inconstância também. Mas é legal, aprendi muito, muito mesmo. E mudei mais do que gostaria. A fase nerd-geek-master havia me deixado descontraída, espontânea. A universidade me azedou. Mas agora o curso está legal, as perspectivas são boas, deixei o misto de revolta e decepção de lado. É assim mesmo, fazer o que. Outro ponto em mim que se alterou: agora eu sou conformada. Mudar de cidade não mudou minha vida. São outros prédios, outras casas, outros corpos. A mentalidade é a mesma. Murchei: deve ser mais fácil ser feliz mudando qualquer coisa em mim do que tentando mudar o montante errado que me cerca. Marcel discordará de mim nesse ponto, mas só o fará porque não se frustrou com o que julgava ser o marco de um novo modo de existir.
Agora só me falta um caderno. Quero voltar a escrever. Para mim. Como era antes dessa coisa de prestar contas gramaticais e formatacionais (?) a uma instituição. ABNT sux. Falar nisso, preciso aprender a usar o word.
Agora eu vou ler até chorar e dormir. Dormir com o despertador desligado, claro.

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July 4, 2008

Passou


Eu não sou mais branca e preta.
Não mesmo.

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