do futuro que tropica no passado
Então eu olho velhas fotografias e é só comigo que você está sorrindo.
Eu fui embora. Como a gata que cansa de olhar para o filhote morto. Ela não entende, mas sabe que dali pra frente a responsabilidade não mais é sua. Em pensar que eu era tão criança e tão cheia daquilo. Nunca mais senti tanto. Nunca mais. Eu fui embora e fiquei lá, porque você continua lá. Continua vivendo do mesmo jeito, com a mesma pessoa. – Por que terminar? – você perguntou – e eu morri de vergonha e ódio. Eu não estou mais, foi você que lembrou, e logo depois fez planos. Sempre fizemos planos. Mesmo com ela enfiada em nosso cotidiano. Mas os planos esbarraram em papéis pintados. E eu fiz o papel da vilã.
Mudamos as diretrizes, mas não estou muito certa. Acho que você quer outra coisa pra sua vida. Ela já te sufoca tanto, pra que mais uma? E agora somos adultos e sexo é sempre uma possibilidade. Contamos as mesma piadas, mas às vezes paramos de rir. A malícia inoperante não é engraçada. Você ficou um pouco mais sério e menos magro. Eu gosto de óculos e gordura. Mesmo.
Continuo olhando para as fotografias. Eu também estou sorrindo. Mas eu sorrio sempre, então não faz muita diferença. Lamento pelas coisas que você disse que te ensinei. Mas não lamento muito. Se paramos de nos importar, é porque já sabemos o que vai ser. Eu gosto de brincar de acreditar no futuro. De crer que em 2011 tornaremos a morar dentro das mesmas delimitações geográficas.