April 30, 2009

Não é de chocolate, mas


Daí eu fiquei com saudade de casa e pedi pra tirarem fotos dela e me enviarem. O problema foi que, ao invés de saciar toda a vontade de estar sob aquele céu e inserida naquela atmosfera, tudo o consegui foi sentir mais falta do lugar em que criei os demônios que hoje brincam de ovo-choco comigo.
Saudade daquele degrau que me acolhia quando eu chegava da aula, à noite. Daquele cheiro de mato úmido que batia na minha cara logo que eu abria a porta de manhã cedinho. Daquela grama que podia ser pisada. Daquela janela que eu deixava aberta só pra poder deitar na cama e olhar para cima e ver os galhos sem folhas contrastarem com o céu azul. Do meu quarto frio com a minha cama grande e minha mesa querida e meu mapa gigante e meu guarda-roupa infinito.
O bom é que eu sempre volto ao presente antes das lágrimas. Um ponto pra mim.


aham, nós tínhamos TV


O que eu via do meu quarto antes. 

 

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April 24, 2009

McTexto


No começo eu me sentia inferior. Eu era a “não-sei-o-que-é-isso”, a “nunca-fui”, “nunca-comi”, “nunca-tomei”. Mas logo – muito logo – eu notei que minha sensação de inferioridade sempre vinha acompanhada de pena. Pena deles – porque eu nunca PRECISEI ter/fazer certas coisas. Nunca precisei comer no McDonald’s, ir ao shopping, ao cinema, me embriagar (agora é diferente) ou tomar cinco Coca-colas por dia. Nunca precisei tomar o café da manhã fora de casa, porque papai esquentava o leite, misturava com achocolatado, cortava o pão de milho da mamãe, passava melado e nata nele, fatiava o queijo colonial e me dava uma banana no fim de tudo. E me acordava de leve, aos sussurros, “está na hora, Dani, vem tomar café com o papai”.
O almoço era às vezes da mamãe e às vezes do papai, porque esse negócio de mulher fazer tudo nunca funcionou na minha casa. E a louça era minha, cada um fazia um pouquinho pra ninguém fazer muito. E era aquilo: salada, carne, arroz, feijão, mandioca, batata, molho e suco/batida de alguma fruta de época. Às vezes galinhada, à vezes carreteiro. No sábado, pizza feita em casa. Ou sopa de galinha caipira com pastel, também caseiro. Domingo, churrasco sempre. Com maionese de batata e cuca. E refrigerante.
Nunca precisei usar elevador porque era simples entrar e sair de casa – uma fechadura apenas. Aqui são três: condomínio, prédio e apartamento. Tempo e privacidade perdidos. Também nunca precisei pegar ônibus (com exceção de alguns anos da infância, mas a distância era ridícula, quatro quilômetros apenas). Aqui, perco duas horas do meu dia dentro de um.
Cinema eu nunca tive, mas era tão legal convidar umas três pessoas, alugar um filme e ver em casa, comendo pipoca com melado e tomando tererê. E depois sentar no degrau da calçada e falar besteirinhas.
Eu tenho os pés feios porque subia em tudo, corria por tudo, rolava em qualquer lugar e gostava de sentir a grama e a terra e as pedras embaixo dos meus pés. Diferente daqui, onde as crianças ACHAM que é vida brincar no shopping.

[Pausa para um copo de água.]

Pensei nisso tudo enquanto assistia “super size me”, documentário que todos conhecem. Estava procurando não-lembro-qual filme e encontrei o dito cujo. Há não muito tempo também assisti “nação fast-food”, tão triste quanto o primeiro. A comida é só umas das coisas que são piores na “cidade grande”. E é até aceitável: são muitas as horas passadas fora de casa. A preguiça [de preparar um sanduíche natural e levar para o trabalho] associada à quantidade assustadora de barraquinhas de cachorro-quente-salgados-fritos-sorvetes-pipocas-pastéis-doritos-biscoito-whatever realmente despertam a gula, maldita gula. Os grandes centros vivem do marketing. Tão cool morar neles. Tem tudo e as coisas chegam mais rápido. Mas o ar é sujo, a água idem, nunca o silêncio gostoso, sempre o barulho irritante, sempre a angústia de chegar. E a comida horrorosa. WHAT THE HELL AM I DOING HERE?

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April 23, 2009

adultos são sinceros quando se dirigem a crianças


Leitura e Literatura Infanto-Juvenil, a disciplina mais legal deste semestre (enquanto temática, não enquanto “condução”). Daí fui fuçar nessa categoria de livros na biblioteca em que trabalho. Primeiro a nostalgia, sempre ela, diante de alguns livros da coleção vaga-lume. Depois a vontade de ler tudo de novo e de novo. Duas semanas assim: namorando aquelas prateleiras baixas. Ontem decidi: Saramago pode esperar, porque vontades existem para serem saciadas. Diante da dúvida, comecei com algo que me fez voltar à quarta série: as fábulas de Esopo. Lembro de uma sobre gatos e ratos, em que os ratos, para saberem da aproximação do gato, têm a idéia de colocar-lhe um sino no pescoço. Desconheço o desfecho, mas logo o relembrarei.
O que mais me atrai nos livros dedicados aos pequenos é o conteúdo denso não acobertado pelo suposto intelectualismo adulto. Né? 

Up: olha só o que eu encontrei.

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April 21, 2009

mifu


Perdi quando comecei a subestimar meu adversário. Palmas pra mim.
[Agora a parte difícil: canalizar DE NOVO a vontade de vencer (que de repente deixou de fazer sentido e, bem, shit)]

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April 17, 2009

WEEEEEEEEEEEEEEEE


CHEGOU CHEGOU CHEGOU. O livro dado e autografado por ele. Detalhes e apreciação crítica (cóf cóf) assim que eu terminar de lê-lo. Dia feliz, dia feliz.

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April 16, 2009

sem-troco


de-repente-o-SER-caiu-quebrou-espalhou-se-pela-casa-machucou-os-pés-dos-passantes-passairos-que-por-ali-passavam-naquele-instante-e-para-sempre.ninguém-viu-ou-sentiu-ou-notou-os-cacos-de-medo-angústia-insegurança-determinação-confusão-enfiados-na-sola-do-pé-(-dos-seus-pés-)-[-sempre-tão-dura-áspera-ondulada-quanto-a-vida-].e-agora-o-SER-é-plural-e-todos-pagam.todos-pagam.

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April 14, 2009

inferno astral pega


Hoje eu estou uma berinjela: roxa, inchada e com um cabinho saindo da cabeça. Passa, dia, passa [a uva não, que eu gosto dela in natura mesmo].

 

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April 8, 2009

Sim, de novo isso


Daí a menstruação atrasa e, embora o desespero, você pára para pensar seriamente no que faria se estivesse grávida. A internet está cheia de relatos e lugares-comuns: - mimimi, abortei e agora minha consciência pesa, não faça o mesmo, não faça. Outros são mais plausíveis: - tive uma hemorragia, fui internada e meu útero foi retirado para que minha vida pudesse ser salva.
Pensei: eu abortaria sem problemas. Não é a razão que faz do homem, homem? Um punhadinho de células são pessoas em potencial, mas não são gente ainda. O problema é a segurança – a minha, claro. Pessoas já morreram utilizando aquele comprimido cujo nome todos conhecem. Outras tiveram filhos mal-formados. Outras ficaram com seqüelas irreparáveis. Não quero isso para mim, muito embora eu também não queira o filho. Não agora.
Daí lembrei do woman on waves, uma ong que realiza abortos em países em que a prática é proibida. Fuçando no site, encontrei a Rede Feminista de Saúde, uma organização brasileira que não realiza abortos, mas faz campanhas e fornece assistência informacional a quem deseja abortar.
Quando o governo acordará para a realidade? É como as drogas: quem quer, usa. O desespero leva milhares de mulheres à morte todos os anos. E ninguém faz nada. Isso sem contar as questões pragmáticas: é triste ter consciência de que nem no meu corpo eu posso mandar. Se existem métodos contraceptivos que não são 100% eficientes, o que nos resta?
Mulher sofre, como sofre.

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April 6, 2009

um sinal, apenas um


Dear God
Faça o favor de repintar as paredes do domingo. Eu sou mais laranja, mas quem manda é você e, bem, fazer o que. A questão é que domingo não pode continuar desse jeito – mofado, caindo, com titica de barata num canto e traças em outro. Sim, é um pedido
                         [olha minha cara de humilde].

No aguardo.

[Sem atenciosamentes, porque esse papel já tem ator]   

 

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