No começo eu me sentia inferior. Eu era a “não-sei-o-que-é-isso”, a “nunca-fui”, “nunca-comi”, “nunca-tomei”. Mas logo – muito logo – eu notei que minha sensação de inferioridade sempre vinha acompanhada de pena. Pena deles – porque eu nunca PRECISEI ter/fazer certas coisas. Nunca precisei comer no McDonald’s, ir ao shopping, ao cinema, me embriagar (agora é diferente) ou tomar cinco Coca-colas por dia. Nunca precisei tomar o café da manhã fora de casa, porque papai esquentava o leite, misturava com achocolatado, cortava o pão de milho da mamãe, passava melado e nata nele, fatiava o queijo colonial e me dava uma banana no fim de tudo. E me acordava de leve, aos sussurros, “está na hora, Dani, vem tomar café com o papai”.
O almoço era às vezes da mamãe e às vezes do papai, porque esse negócio de mulher fazer tudo nunca funcionou na minha casa. E a louça era minha, cada um fazia um pouquinho pra ninguém fazer muito. E era aquilo: salada, carne, arroz, feijão, mandioca, batata, molho e suco/batida de alguma fruta de época. Às vezes galinhada, à vezes carreteiro. No sábado, pizza feita em casa. Ou sopa de galinha caipira com pastel, também caseiro. Domingo, churrasco sempre. Com maionese de batata e cuca. E refrigerante.
Nunca precisei usar elevador porque era simples entrar e sair de casa – uma fechadura apenas. Aqui são três: condomínio, prédio e apartamento. Tempo e privacidade perdidos. Também nunca precisei pegar ônibus (com exceção de alguns anos da infância, mas a distância era ridícula, quatro quilômetros apenas). Aqui, perco duas horas do meu dia dentro de um.
Cinema eu nunca tive, mas era tão legal convidar umas três pessoas, alugar um filme e ver em casa, comendo pipoca com melado e tomando tererê. E depois sentar no degrau da calçada e falar besteirinhas.
Eu tenho os pés feios porque subia em tudo, corria por tudo, rolava em qualquer lugar e gostava de sentir a grama e a terra e as pedras embaixo dos meus pés. Diferente daqui, onde as crianças ACHAM que é vida brincar no shopping.
[Pausa para um copo de água.]
Pensei nisso tudo enquanto assistia “super size me”, documentário que todos conhecem. Estava procurando não-lembro-qual filme e encontrei o dito cujo. Há não muito tempo também assisti “nação fast-food”, tão triste quanto o primeiro. A comida é só umas das coisas que são piores na “cidade grande”. E é até aceitável: são muitas as horas passadas fora de casa. A preguiça [de preparar um sanduíche natural e levar para o trabalho] associada à quantidade assustadora de barraquinhas de cachorro-quente-salgados-fritos-sorvetes-pipocas-pastéis-doritos-biscoito-whatever realmente despertam a gula, maldita gula. Os grandes centros vivem do marketing. Tão cool morar neles. Tem tudo e as coisas chegam mais rápido. Mas o ar é sujo, a água idem, nunca o silêncio gostoso, sempre o barulho irritante, sempre a angústia de chegar. E a comida horrorosa. WHAT THE HELL AM I DOING HERE?
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