April 24, 2009

McTexto


No começo eu me sentia inferior. Eu era a “não-sei-o-que-é-isso”, a “nunca-fui”, “nunca-comi”, “nunca-tomei”. Mas logo – muito logo – eu notei que minha sensação de inferioridade sempre vinha acompanhada de pena. Pena deles – porque eu nunca PRECISEI ter/fazer certas coisas. Nunca precisei comer no McDonald’s, ir ao shopping, ao cinema, me embriagar (agora é diferente) ou tomar cinco Coca-colas por dia. Nunca precisei tomar o café da manhã fora de casa, porque papai esquentava o leite, misturava com achocolatado, cortava o pão de milho da mamãe, passava melado e nata nele, fatiava o queijo colonial e me dava uma banana no fim de tudo. E me acordava de leve, aos sussurros, “está na hora, Dani, vem tomar café com o papai”.
O almoço era às vezes da mamãe e às vezes do papai, porque esse negócio de mulher fazer tudo nunca funcionou na minha casa. E a louça era minha, cada um fazia um pouquinho pra ninguém fazer muito. E era aquilo: salada, carne, arroz, feijão, mandioca, batata, molho e suco/batida de alguma fruta de época. Às vezes galinhada, à vezes carreteiro. No sábado, pizza feita em casa. Ou sopa de galinha caipira com pastel, também caseiro. Domingo, churrasco sempre. Com maionese de batata e cuca. E refrigerante.
Nunca precisei usar elevador porque era simples entrar e sair de casa – uma fechadura apenas. Aqui são três: condomínio, prédio e apartamento. Tempo e privacidade perdidos. Também nunca precisei pegar ônibus (com exceção de alguns anos da infância, mas a distância era ridícula, quatro quilômetros apenas). Aqui, perco duas horas do meu dia dentro de um.
Cinema eu nunca tive, mas era tão legal convidar umas três pessoas, alugar um filme e ver em casa, comendo pipoca com melado e tomando tererê. E depois sentar no degrau da calçada e falar besteirinhas.
Eu tenho os pés feios porque subia em tudo, corria por tudo, rolava em qualquer lugar e gostava de sentir a grama e a terra e as pedras embaixo dos meus pés. Diferente daqui, onde as crianças ACHAM que é vida brincar no shopping.

[Pausa para um copo de água.]

Pensei nisso tudo enquanto assistia “super size me”, documentário que todos conhecem. Estava procurando não-lembro-qual filme e encontrei o dito cujo. Há não muito tempo também assisti “nação fast-food”, tão triste quanto o primeiro. A comida é só umas das coisas que são piores na “cidade grande”. E é até aceitável: são muitas as horas passadas fora de casa. A preguiça [de preparar um sanduíche natural e levar para o trabalho] associada à quantidade assustadora de barraquinhas de cachorro-quente-salgados-fritos-sorvetes-pipocas-pastéis-doritos-biscoito-whatever realmente despertam a gula, maldita gula. Os grandes centros vivem do marketing. Tão cool morar neles. Tem tudo e as coisas chegam mais rápido. Mas o ar é sujo, a água idem, nunca o silêncio gostoso, sempre o barulho irritante, sempre a angústia de chegar. E a comida horrorosa. WHAT THE HELL AM I DOING HERE?

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3 Comments »

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  1. Morar nos grandes centros (ou no Grande Centro: SP)tem suas vantagens, principalmente para quem não pode prescindir de “vida cultural”. Mas não sei se o acesso a filmes, peças, eventos e outros programas e produtos culturais compensa os malefícios do dia-a-dia na metrópole, como você bem descreveu.

    Eu moro no interior, sou bicho-do-mato, e tenho quase certeza que, se me mudasse pra uma cidade grande, não “sobreviveria” muito tempo. Como nunca vivi essa experiência, estou apenas conjeturando.

    Abraço.

    Eu moro em Florianópolis, uma cidade pequena, limpa e tranqüila se comparada a às capitais vizinhas. Antes de vim pra cá, eu acreditava mesmo que minha vida cultural seria outra, que eu finalmente teria acesso a muitas e muitas coisas que antes não me eram possíveis. Mas eu sou estudante e até recebo bem e me viro bem e tenho meus pais pra me socorrer quando a coisa aperta, e ainda assim as poucas opções que tem aqui são financeiramente inacessíveis. Em suma: continuo fazendo as mesmas coisas que fazia em casa. O pouco que consigo aproveitar não compensa toda a agitação incansável daqui, o stress, etc.

    Comment by Bruno M. Oliveira — April 25, 2009 @ 7:18 pm

  2. Realmente, morar num centro urbano é um inferno. Quero super ter a minha casa de campo como um refúgio pra quando estiver casada. Só que tb adoro a vida na cidade. Pode me chamar de tola, consumista e qquer coisa mais q vc queria, mas não troco meu cinema com comida chinesa e coca-cola por nadica de nada.
    Beijo beijo, flor.

    Você gosta da vida na cidade porque você cresceu em uma, e todo esse inferninho está sentimentalmente dentro de ti. Gosto de algumas coisas daqui, óbvio, mas preferiria muito mais levar uma vida pacata na minha casa de campo ISOLADA e com um jardim gigante e um pomar também gigante e alguns coelhos soltos na grama e enfim. Eu deveria começar a escrever literatura árcade, hahahahaha.

    Comment by Karol — April 26, 2009 @ 4:29 pm

  3. Mosquitos. Mosquitos. Mosquitos. É isso que campo (”mato”, como eu chamo) significa pra mim.

    Tomar café da manhã fora de casa é coisa de rico. E como moro numa rua calma, pra mim o barulho da cidade é nada. E já morei no centro da cidade, perto de uns 25-30 terminais de ônibus, e tipo… Tu acostuma com o barulho. Eu, pessoalmente, gosto. A não ser que seja dentro de casa quando eu tô tentando dormir.

    Mas eu nunca me acostumaria com mosquitos. Muitos mosquitos.

    Existe uma coisa chamada mosquiteiro. Enfeita o quarto, não é tóxico e você acorda imaculado. Fim.

    Comment by Anti — May 2, 2009 @ 7:52 pm

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