October 5, 2009

Citação de hoje:



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Retirada de Hellboy - contos bizarros. Muito muito muito bom. 

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September 26, 2009

Clube da luta


De uns tempos pra cá eu tenho pensado muito em coisas materiais. Antes não era assim, porque não havia razão para ser assim. Mas hoje, depois de me submeter a tantos inconvenientes, eu só penso no depois: no concurso em que passarei, na casa que terei, no carro que comprarei, na casa que darei aos meus pais, na decoração, nos livros, na parede cheia de quadrinhos e partituras.
Daí acontece Clube da Luta. Eu assisto e choro: porque o vazio é vazio sempre, com ou sem cama confortável.

 Chorar é só o que dá para fazer nesta escuridão asfixiante,
dentro de outra pessoa,
quando você percebe que tudo o que já fez
não passa de lixo.

Não sei quem inventou esse jogo de dar e destruir esperanças. É uma constante: você quer, você luta, na metade descobre que o resultado ficará muito aquém do esperado e no fim percebe que de nada adiantou.

 É só um momento, disse Tyler,
você dá um duro danado, mas um momento de perfeição vale qualquer esforço.
Um momento é o máximo que se pode esperar da perfeição.

E a dor – sempre ela – fundamentando tudo. O fim de qualquer coisa é o sofrimento. A igreja faz isso por meio do pecado. O sistema faz isso por meio do dinheiro. A mídia faz isso explorando ilusões.
Tudo é um grande logro. Você acha que não, mas terminará no fundo do poço. Pobre ou rico, o fundo do poço é o mesmo para todo mundo. Tédio e fome tem efeitos similares quando experimentados em excesso. Clube da Luta foi um tapa na cara. Não muito forte, porque sem bens materiais não iríamos muito longe. É isso que nos distingue dos homens primitivos: possuímos apêndices. Os selvagens são completos. Nós somos os nossos computadores, rádios, TVs e livros.
O livro e o filme ressuscitaram idéias antigas: se ninguém concorda com as convenções socialmente aceitas, porque continuamos fazendo de conta que a vida é assim mesmo?

O importante é não esquecer o resto de você
quando uma parte vai mal.

E teve ainda a exposição da nossa fragilidade – física e intelectual. A exposição da nossa suscetibilidade, nossa capacidade de dominação e submissão (a uma ideologia, a uma pessoa, a um trabalho). A elevação do ser humano ao nada. Se começássemos nossa existência com o pressuposto de que nada somos e de que não existe razão alguma para estarmos vivos, certamente apreciaríamos tudo isso com outro paladar. Mas não, precisamos sempre fazer algo para sermos alguém. “Ser alguém” é sempre um projeto futuro, nunca uma qualidade presente.
Mas o pior, o pior mesmo, é rebelar-se internamente e ser um exemplo de “cidadão ideal” nas práticas cotidianas. É essa minha maior frustração.

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September 25, 2009

A tragicomédia acadêmica


FINALMENTE encontrei alguém que soube expressar de modo exato o que eu penso sobre o sistema educacional e a Universidade.  Leia ou ouça o conto aqui.

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May 15, 2009

senão por uma diferença na alma


Vem e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beija
Senão por uma diferença na alma.
[Fernando Pessoa]


A vontade de ler está gradativamente voltando, e é bom que seja assim: literatura não combina com Universidade e menos ainda com final de semestre (ai, olha a consciência do cocô voltando).
Dois: versos só me atingem em épocas de sensibildade emocional. Ou seja.

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March 8, 2009

chove chove chove


Algumas considerações sobre o livro ‘hoje está um dia morto’, de André de Leones. Gostei. Meio tediante no começo, mas o que não é?
O retrato de parte da juventude brasileira. Dessa juventude que nunca me aceitou. Não sei se a educação cristã influenciou nisso (apesar do ceticismo). Eu não consigo não esperar por nada. Não consigo consumir nada pra esquecer (salvo comida, mais precisamente chocolate e bolo e brigadeiro e etc.). Tentei manter uma rotina de bebedeira ano passado, mas não funcionou. Ficar torpe por alguns minutos só faz o acordar ser mais doloroso. Eu já quis me matar. Comecei a gostar de química quando soube que o jardim da minha casa podia ser letal. Mas na hora de beber, eu pensei na morte como o tipo de experiência que pode ser adiada. Minha vida não gira em torno do sexo, apesar do instinto que a antropologia nega. Eu sou deslocada, sou mesmo, e não preciso de artifícios pra amenizar a coisa. Nem de artifícios nem de atenção (porque tem aqueles que surtam se não forem notados).
A parte intrigante do livro, que não corresponde à realidade brasileira, é o nível cultural dos dois, ou pelo menos de Jean. Sempre fico frustrada quando leio coisas que ignoram a auto-destruição provocada pela leitura. Querendo ou não, ela (a leitura) traz consigo um certo amargor e desesperança. Às vezes me pergunto se não é o contrário – se não é a desesperança que vem primeiro. E talvez seja isso mesmo, mas a leitura sempre acentua essa coisa ruim que sentimos. Tão ruim que às vezes acaba com uma bala alojada em alguma parte vital do organismo.

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February 23, 2009

O ódio e contos ordinários - Cristiano Scheiner


Dentre todas as coisas da “civilização” que eu detesto, estão a convivência forçada (e conseqüente anulação da espontaneidade) e a idéia de que todas as coisas estão interligadas por relações de causa e efeito. ‘O ódio e contos ordinários’ é um livro que trata desses dois aspectos, concentrando-se no segundo. Na maioria das histórias, assassinatos e suicídios ocorrem sem qualquer explicação plausível. E é este o ponto: dívidas, traições e depressão realmente justificam a consecução de atos hediondos?
No primeiro conto, a personagem sente um desconforto ao ver outra pessoa. Aos poucos, esse desconforto toma formas de raiva. Poderia ter terminado aí, se ambos não freqüentassem ambientes comuns. A convivência forçada levou ao assassinato. Um deles poderia ter dito ao outro: “- não gosto de ti, afaste-se”. Mas a educação não deixaria – precisamos ser amiguinhos de todos, não é isso que nos ensinam? Ainda que sejamos fruto de relações nem um pouco harmônicas.
É isso. Foi o melhor livro que li nos últimos três meses.

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March 6, 2008

trapo trapo trapo


Então eu descobri Trapo. Me identifiquei (adeus, gramática) com Trapo, tive vontade de ser Trapo por um único dia, de possuir a máquina de escrever de Trapo, de usar as mesmas drogas que Trapo usou, de morar na pensão em que Trapo morou, de fugir com Trapo, de ter a Magnum com silenciador que Trapo tinha para matar sua imaginação.
E, em menos de meio livro, Tezza conseguiu citar dois autores e duas obras desses autores que fizeram a minha vida ser outra, mais ruim, talvez, porque a verdade é uma bala com estilhaços que se desprendem com o tiro e acertam o alvo em pontos que são de preocupar.
Dani vive. Mais que antes, há que se dizer. E sem fones de ouvido.  

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December 28, 2007

outro Braga


Estou lendo “As boas coisas da vida”, de Rubem Braga. Peguei-o porque estava cansada de não poder acrescentar nada quando assunteávamos sobre o dito autor. Não que eu converse sobre esse tipo de coisa com as pessoas, mas amigos imaginários sabem ser bem exigentes às vezes, não é, Jim?  

As expectativas não eram lá aquelas. Nada comparado à Adams e Allen. Mas eu até simpatizei com o animal, confesso. A impressão que ficou, contudo, é a de que ele transita entre as duas primeiras fases do escritor.

 

Pausa para esclarecimentos:

Num primeiro momento, todo escritor é do tipo "mamãe, olha, fui eu que desenhei!". Nessa etapa pretende-se impressionar os demais. Para isso, o dicionário é freqüentemente consultado e são feitas incontáveis revisões. Cavalos transformam-se em eqüinos, bunda vira glúteos, macacos são primatas primitivos.

Na etapa seguinte o dicionário fica longe, a gramática sangra e o escritor se liberta. Entra-se num momento em que a expressão é realmente o que conta, mesmo que para isso seja mister se utilizar da tão popular “licença poética” (“ele sabia que estava errado e só não colocou sic porque isso é coisa de gente gavola”). A terceira e última fase, sim, é a ambição de todo redator: palavras feias tecem uma redação bonita. Acontece, porém, que ao chegar nesse estágio ou a pessoa está ao pé da cova ou sente-se deus e passa a gastar energia falando mal de Drummonds, de Pectors, de Andrades. Porque agora ele pode.

Escritores bons são aqueles que oscilam entre a segunda e a terceira fase. Sabem que são bons e sabem também que, embora difícil, ainda é possível melhorar.

Fim da pausa.

 

Tudo isso só para comentar uma de suas crônicas. Não é que o cara escreveu que o brasileiro é o único povo que esnoba sua bebida verdadeiramente nacional? E não é que, pensando bem, é isso mesmo? A cachaça é nossa, escreveu ele. Todos bebem e falam que preferem vinho. Todos bebem e ignoram a procedência do produto, porque não importa de onde vem, sempre é do canto do fundo do quintal. E ai do político que disser que seria legal que os alambiques fossem fiscalizados e etc. etc.

Leiam o livro, bem interessantes as crônicas. Nunca mais esquecerei que foi Estácio de Sá quem expulsou os franceses e Costa e Silva quem instaurou o AI-5. Falar em história, eu zerei a discursiva sobre diretas já. Parabéns pra mim.

 

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November 14, 2007

Oficina de leitura


Desde sempre eu quis ter um amiguinho que declamasse poesia comigo. Mas como poesia é algo tão brega quanto a palavra brega (e a palavra abadecídio), esse amiguinho jamais chegou a existir. Aí um professor da Universidade resolve coordenar um projeto que é quase o amiguinho que nunca eu tive: reuniões semanais em que são lidos e “discutidos” textos [que deveriam ser] clássicos. Aspas porque quem interpreta são os outros. Eu ouço e depois me martirizo pensando em como eu não havia visto o lado mais evidente da coisa.
Ontem fui a uma sessão em que esteve presente o tal professor [Doutor, cóf, cóf] coordenador. Ele é legal e sabe um monte e eu saí da reunião mais arrasada que o convencional. Aquela sensação de que nunca li nada profundamente. Mas eu tenho 17 anos e desconheço bordéis, como posso ter experiência o suficiente para entender as ‘inferências’ que fazem autores como Poe? (acresceram outra ‘missão’ ao que deve ser feito para fazer a vida ter valido a pena: plantar um árvore, escrever um livro, ter um filho e freqüentar bordéis). Consola o fato da leitura ser uma atividade subjetiva: o único argumento que eu preciso para alterar a idéia de um escritor é “entendi dessa maneira, seu ignorante”. Enfim.
O texto de ontem foi um conto de Poe, O homem na multidão. Em suma, aquela sua vizinha que não consegue ficar em casa por muito tempo (e, quando é impossibilitada de sair, conversa com a Fátima Bernardes para amenizar a inquietação). A solidão em meio a multidão. Ninguém falou, mas existe um lado bom em ser o tal homem: a inexistência de estereotipação. Todas as outras pessoas eram traídas por sua aparência. O homem da multidão, não. Mas o texto foi-me praticamente um tapa. Eu sou sozinha [mas detesto multidões]. Corrijo-me: sinto PÂNICO em meio a muita gente. Por isso freqüento lugares pouco movimentados. Mas devo estar mudando. Afinal, a razão que me levou ao ostracismo não existe mais. Vamos beber quando, Nayana?
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November 12, 2007

dá dá dá


Encarnei Tristan Tzara: vou compor um poema “infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público” (essa foi a definição dada ao escritor, mas eu quero atribuí-la ao poema, dá licença). Tive a originalíssima idéia de aglomerar frases bonitinhas de músicas bonitinhas. Na verdade, são trechos que eu PRECISO cantar quando ouço a composição da qual fazem parte. E sim, eu tenho tendências emo-depressivas, não diga. O título da ‘ode’ foi inteligentemente retirado do dicionário, para fazer jus ao título do texto. Na seqüência, ta-ram ta-ram, GUTA-PERCHA:

Guta-percha

You don’t have to go home, but you can’t stay here
It was really nothing (It was your life)
What the hell am I doing here, I don’t belong here
Eu nem sinto meus pés no chão
I want to change it all
Heaven’s a lie
There’s no one in this life to be here at my side
Não adianta dormir que a dor não passa
Sixteen, clumsy and shy, that’s the story of my life
Minha namorada da primeira vez, onde estás deitada e que forma tem teu rosto agora?
Old loves they die hard, old lies they die harder
That my family don’t seem so familiar
Do you ever dream of escaping?
I’ll run away with you
Se ela quer flores, que cheiro elas têm, marsupiais são do bem
Learn to cry like a baby, then the hurting won’t come back
Let’s go to bed!
Freedom is only a hallucination
Não quero é vender flores nem saudade perfumadas
Maybe I just wanna fly
I wanna shut the door and open up my mind
Find me somebody to love
Amanhã há de ser outro dia…
It’s time to leave your sheltered cage, face you deepest fears
O sol é um só, mas quem sabe são duas manhãs
Estou fugindo casa
When you’re strange, faces come out of the rain
Que coisa mais chata, eu não quero me casar
Life on the other hand won’t let us understand we’re all part of the masterplan
Love sets me free, the prisoner is now escaping
Vá embora e feche a porta, tenho frio, aham
The future’s uncertain, and the end is always near
There’s no reason for living with a broken heart
Pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca
I used to dream, you used to fly
Fly me to the moon, let me sing among the stars
Nove milhões de dias chuvosos inundarão a cidade, afogarão invejosos
É um resto de toco, é um pouco sozinho
Love is all you need
Um caminho a percorrer, um sentido a refazer, um país para trocar uma esperança nova no ar
No safety or surprise, the end.

Pergunte a deus quais os artistas citados, que eu tenho preguiça de digitar todos eles. Agora eu vou ali fazer uma cobrinha com caixas de ovo. Tchau.

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November 5, 2007

Coceira


O dia em que eu deixar de me sentir ridículo, os terei vencido.
Fausto Wolff, como muitos escritores legais (coisa que a crítica odeia, a propósito), não é conhecido dos leitores brasileiros.
- Generalizar é feio, alô.
Ok, ok. EU nunca tinha lido qualquer coisa dele ou que fizesse referência a ele. Aí fui à biblioteca [nova, ãin, de medíocre passou a supimpa] e, como sempre, fiquei andando entre as prateleiras esperando o livro da vez cair sobre minha cabeça. Não que isso já tenha acontecido, mas podemos fazer de conta que sim, isso aqui é literatura, ou quase.
O livro não caiu, confesso, mas era porque ele estava bem embaixo e tal. É errado julgar o livro pela capa e, conseqüentemente, pelo título, mas que outro critério poderia ser adotado? Tamanho? É vergonhoso ler coisas fininhas quando se é adulta. O bibliotecário pode interpretar mal, heh.
Matem o cantor e chamem o garçom: um lombo com essa impressão não passa batido, não senhor. Extremamente bom e engraçado e deprimente. Uma obra decente é aquela que consegue ser várias coisas contraditórias ao mesmo tempo. O cômico do livro é o português, o modo de expor os fatos. O melancólico, os fatos. Aquilo que já sabemos: o absurdo que é esse mundo e as convenções adotadas pelos humanos. “Convenções” enquanto critérios para distinguir normalidade de aberração.
A história é composta de pequenos contos, divididos em quatro partes: jardim, prisão, casa e hospital. Em síntese, do jardim ele, Parsifal (que eu insisto em ler “Parsival”), é levado à prisão por ter queimado os livros de um menino, argumentando que a escola não ensina coisa alguma etc., o que também já sabíamos. Depois ele volta para casa e decide não mais sair dela, para evento que seja. Seu comportamento “estranho”, aliado a outras tentativas de atentado ao pudor, o leva ao hospital, vulgo manicômio, onde eu não lembro o que acontece.
Os gaúchos são os melhores autores brasileiros, definitivamente. Tá, só do modernismo em diante.
Pra terminar:
Olhos que dizem que o planeta é pequeno demais para nós. Para mim e a realidade.
Óun. Eu, oi.
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