De uns tempos pra cá eu tenho pensado muito em coisas materiais. Antes não era assim, porque não havia razão para ser assim. Mas hoje, depois de me submeter a tantos inconvenientes, eu só penso no depois: no concurso em que passarei, na casa que terei, no carro que comprarei, na casa que darei aos meus pais, na decoração, nos livros, na parede cheia de quadrinhos e partituras.
Daí acontece Clube da Luta. Eu assisto e choro: porque o vazio é vazio sempre, com ou sem cama confortável.
Chorar é só o que dá para fazer nesta escuridão asfixiante,
dentro de outra pessoa,
quando você percebe que tudo o que já fez
não passa de lixo.
Não sei quem inventou esse jogo de dar e destruir esperanças. É uma constante: você quer, você luta, na metade descobre que o resultado ficará muito aquém do esperado e no fim percebe que de nada adiantou.
É só um momento, disse Tyler,
você dá um duro danado, mas um momento de perfeição vale qualquer esforço.
Um momento é o máximo que se pode esperar da perfeição.
E a dor – sempre ela – fundamentando tudo. O fim de qualquer coisa é o sofrimento. A igreja faz isso por meio do pecado. O sistema faz isso por meio do dinheiro. A mídia faz isso explorando ilusões.
Tudo é um grande logro. Você acha que não, mas terminará no fundo do poço. Pobre ou rico, o fundo do poço é o mesmo para todo mundo. Tédio e fome tem efeitos similares quando experimentados em excesso. Clube da Luta foi um tapa na cara. Não muito forte, porque sem bens materiais não iríamos muito longe. É isso que nos distingue dos homens primitivos: possuímos apêndices. Os selvagens são completos. Nós somos os nossos computadores, rádios, TVs e livros.
O livro e o filme ressuscitaram idéias antigas: se ninguém concorda com as convenções socialmente aceitas, porque continuamos fazendo de conta que a vida é assim mesmo?
O importante é não esquecer o resto de você
quando uma parte vai mal.
E teve ainda a exposição da nossa fragilidade – física e intelectual. A exposição da nossa suscetibilidade, nossa capacidade de dominação e submissão (a uma ideologia, a uma pessoa, a um trabalho). A elevação do ser humano ao nada. Se começássemos nossa existência com o pressuposto de que nada somos e de que não existe razão alguma para estarmos vivos, certamente apreciaríamos tudo isso com outro paladar. Mas não, precisamos sempre fazer algo para sermos alguém. “Ser alguém” é sempre um projeto futuro, nunca uma qualidade presente.
Mas o pior, o pior mesmo, é rebelar-se internamente e ser um exemplo de “cidadão ideal” nas práticas cotidianas. É essa minha maior frustração.
